terça-feira, 8 de setembro de 2009

Olhos Aguados

Como ela odiava aquela professora. Gorda, feia e chata. Sentia náuseas ao olhar o rosto daquela mulher, um pouco enrugado e com sardas. Desde que entrara naquele maldito colégio há quase quatro anos, vinha suportando as críticas e mau-dizeres daquela grotesca pessoa. Mas o ódio da professora por ela também era grande e a garota podia senti-lo todas as vezes que a mestra virava sua cabeça enorme e fitava-a com seus olhos azuis aguados. Era o que a garota mais odiava na professora, seus olhos, mas ela era forte e quando a mulher encarava-a ela assumia seu posto em frente à batalha e recusava-se desviar o olhar. De fato, nunca perdera, era sempre a professora que desistia.
O colégio era antigo e grande. Os corredores escuros e os cantos sombrios. A menina gostava disso, pois encontrava diversos esconderijos. Conhecia lugares que nem mesmo o diretor da escola sabia a existência. O jardim era imenso, mas a garota não ia lá, pois era cheio de pessoas felizes que sorriam sem parar. Depois dos olhos da professora, a coisa mais desprezada pela garota era o sorriso. Ela sentia vontade de arranhar a face daqueles que via sorrindo. “Eu odeio a felicidade” pensava ela.
Agora, debruçada em sua mesa, ela olhava fixamente o corpo gordo da professora, que escrevia no quadro-negro. “Eu odeio você”, pensou. Em sua mente surgiam imagens de seu primeiro dia de aula. Ela, uma menina de 11 anos, raquítica, esquelética e branquela, entrando em uma sala de estranhos. Estremeceu ao lembrar-se da primeira vez que viu a professora; ela estava sentada à sua mesa e nem ao menos perguntou-lhe o nome, apenas pediu para que sentasse, depois olhou pra ela com aqueles malditos olhos e comentou que a menina era branca demais. Depois deste comentário, a garota ficou conhecida como Leite Azedo.
Leite Azedo não tinha amigos. Passava as quatro horas de aula de cabeça baixa, no intervalo enfurnava-se na biblioteca, pegava um livro e sentava-se no cantinho mais escuro e úmido. Os livros eram seus amigos, o resto, apenas os inimigos. Sempre desconfiava de seus colegas, que puxavam suas longas tranças, então, gostava de permanecer invisível. Odiava que as pessoas olhassem-na. O que sentia não era apenas timidez, mas uma terrível fúria. Ela analisava todos. Sabia que sua colega da frente coçava o pescoço ao ficar nervosa. O garoto dentuço do extremo da sala estava triste. “Acho que é por causa do pai dele” observou Leite Azedo. Ela notara que todas as vezes que ia falar do pai, o menino abaixava um pouco a voz. “O que será que aconteceu com o pai dele?”
Naquele dia, a garota estava diferente e mais quieta do que nunca, tão parada que até parecia morta. A professora, notando aquilo, aproximou-se e perguntou:
_Morreu menina? Qual a causa de seu desânimo estúpido?
A garota apenas levantou a cabeça:
_ Não é nada.
_Como não é nada? Não é normal que uma garota, por mais chata que seja não faça nenhum amigo. Você é muito anti-social.
“Que mulher maldita” Leite Azedo pensou. Suspirou fundo, olhando aqueles olhos aguados e falou:
_ Eu sou assim.
_ Mas terá que mudar. Não suporto mais ter que ver sua cara branca de desânimo todos os dias.
Todos riram. Leite Azedo olhou em volta e viu dezenas de olhos a encarando.
_ Não olhem pra mim! _ gritou perdendo a paciência. Os alunos apenas aumentaram as risadas.
Seu rosto já não era mais tão branco, estava vermelho. Ela sentiu o coração disparar. Mas ainda não era o bastante para a professora.
_ Talvez se você conversasse mais, não receberia apelidos. Como é que te chamam mesmo? Leite Azedo não é?_ disse ela em um tom de desafio.
Leite Azedo levantou-se , olhou bem fundo nos olhos da professora e sussurrou:
_ Você vai morrer.
_ O que?
A menina agora tremia. Arregalou bem os olhos e repetiu.
_ Eu disse que você vai morrer, querida professora.
A mulher gorda ficou séria. A brincadeira tinha perdido a graça:
_ Você esta louca? Vai ficar sem recreio. Leite Azedo.
Na hora do intervalo todos saíram menos a garota e a professora. Leite Azedo continuou curvada sobre a mesa enquanto a mulher olhava-a. Depois de alguns minutos a menina levantou, pegou um lápis e um apontador , aproximou-se da lixeira e começou apontar o fino objeto. A professora continuava encarando-a com aqueles olhos aguados. “ Eu não gosto que olhem pra mim” Leite azedo pensou. Agora com um leve sorriso a professora encarava-a fixamente.
_ Não olhe pra mim! _ gritou Leite Azedo.
A professora abriu um longo sorriso:
_ Eu olho pra quem eu quiser, na hora que eu quiser.
_ Mas não para mim. E pare de sorrir_ O que aquela maligna mulher queria com ela? Por que não gostava dela? Leite Azedo analisou todas as suas memórias, sempre fora uma boa aluna, por mais que fosse quieta sempre fizera as tarefas. Nunca começara nenhuma confusão. _ Por que você não gosta de mim?
Os olhos da professora brilharam:
_ Por que você não merece que ninguém goste de você. E ninguém nunca vai gostar.
Depois dessas palavras, uma única lágrima escorreu dos olhos de Leite Azedo. Não era uma lágrima transparente, era vermelha, vermelha de sangue. Com a lágrima, também escorreu pelo rosto branquelo as magoas juntadas durante todos aqueles anos.
_ Você não gosta de mim_ a menina falou_ Por isso você me machuca, eu não gosto de seus olhos.
Com um pulo rápido, Leite Azedo aproximou-se da professora levantando o lápis de ponta perversa. Desferiu um golpe certeiro no olho direito da mulher. Sentiu o olho explodir e o sangue sujou suas mãos. A mulher urrou de dor e ajoelhou-se com as mãos no olho furado.
_ Este olho jamais verá que minha pele é branca. Mas falta o outro.
Com mais um golpe a garota furou a mão da professora, que cobria o rosto. A mulher levantou atordoada e chorando. Leite Azedo avançou novamente sobre ela, mas foi empurrada para trás. A gorda mulher ensopada de sangue saiu pela porta. Leite Azedo caminhou lentamente até sua mesa e pegou suas coisas. Não poderia mais voltar naquela escola. Mas não estava preocupada com aquilo. Só tinha um problema a resolver agora. Encontrar a casa da ex-professora. Ainda restava um olho a ser furado...

Jefferson Reis

41 comentários:

Amanda May disse...

Hey, muito interessante aqui !
espero que goste do meu =)

Andy disse...

olha... eu não gostei de alguns professore... mas não chegaria a tanto! hehehehe
bom texto!

Bruna disse...

Caracaa meww
hoho Leite Azedo é fodaaa hoho...
e corajosaa
so por ser extranha a professora não gostava dela que bobo isso..
acho que cada um deve ser como é e deve se comportar da maneira que mais se sentir bemm
muitoo bom o contoo adoreii...

Euzer Lopes disse...

Caramba... Que texto bem feito, bem armado...
Pois mais terrível, tem uma narrativa que prende a atenção.
Final surpreendente.
Autor excelente

André Cavalheiro disse...

Muito original, fera!!!

Guilherme Angélico disse...

Nossa o final é terrivel dá até um friuzinho na espinha heuihuehiue muito bom o texto, como todos os outros

kikinhah disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Vini e Carol disse...

Bacana a história brother.
Mas a menina era meia estranha :S
Hahaha
Abraço.

Arthur A. Melo. disse...

Massa,
tem uns professores que enchem o saco! querem controlar nossas vidas.
terá continuação?
ainda falta um olho
kk

ℓ.mirella disse...

Noossa, sempre quis fazer umas coisas bizarras com os professores tb, haiuhuaihiuhiau.

Bom texto viu!

=}

Bela Salazar disse...

Akguma coisa me fez lembrar édipo rei... Muito bom, ah, onde vc conseguiu o template? É muito legal!
Parabéns

♫ FáZinho ♫ disse...

cara muito obrigado por ter escutado a musica...
agradecido pela força
FOrte abraçoo...

Nanda disse...

Mto legall
Curti!!
VC escreve mto beem.De ond vem tanta inspiraçao assim?rsrsrs
BjoOo
:)

; Dαieh # disse...

. Jeff, muito bom o conto. Mas eu ainda queria saber como termina "A Casa"

KKK
begs ;*

Nova Quahog disse...

MUITO BOM
ESCREVE COMO UMA PROFESSORA!

Coisas de Andinho yankee disse...

caraca, super psicopata

Dayane Pereira disse...

O texto é enigmatico, tem um suspense que nos prende até o fim..
Interessante. Se tiver continuação, será legal!
bjs

 * Cαmilα Penhα ❤ disse...

Nossa que olhaar !
Adorei seu texto, bem criativo é de terror, no final até deu medo ... rsrsrsrs..que menina estranha ...


SUCESSO PARA TI!

Luiza de Oliveira. disse...

Quanto ódio no coração, haha

Luiza de Oliveira. disse...

Quanto ódio no coração, haha

Gabriel dicas disse...

fodacara.
gostei do texto.
veja meu blog ai www.gavrielalon.wordpress.com

Gabriel dicas disse...

Otimo blog cara.
texto bem trabalhado , continue assim :D
veja meu blog ai www.gavrielalon.wordpress.com

RONNY DIAS disse...

Se fosse fazer justiça assim contra cada um dos que me "marcaram" na escola, haveria muito mais caolhos por aí!!
rsrsrs

Lipo J. disse...

A história me lembra experiencias conhecidas

http://www.dolipo.blogspot.com

Vini e Carol disse...

Como já comentei, to passando apenas para não dar calote ;)
Abraço.

Bela. disse...

hauhauhuha acho muito massa, malvada essa! gostei do "ainda restava um olho" :)

Andrew disse...

poxa q amor pelo professor hein!!!

ai vai meu blog caso queira dar uma olhada: ocrononauta.blogspot.com
otema dele eh: filmes sobre viagem no tempo

SO.L. disse...

Vixe, he!

Breno disse...

Eita amor danado menino hehehehe

Lombardi* disse...

nossa se todos fossem se vingar assim o mundo seria abitado apenas por caolhos

henrique menna disse...

adorei seu blog, é muito bom mesmo, parabens continua assim!
bem que o meu poderia ser igual ao seu quando de da uma olhada no meu blog ta!
ja to seguindo o seu!
http://henrique199.blogspot.com/

Alex Abreu disse...

OMG que tanto ódio :P

Fernanda disse...

aaaaaah, adorei! achei super bem elaborado, a idéia dos olhos e tal... gostei muito do final também, deixa aquele ar de fim não finalizado. muito bem feito!

C? disse...

Nossa, e olha que eu tive péssimos professores hehehehehe

WWW.TEORIA-DO-PLAYMOBIL.BLOGSPOT.COM

Gúh! disse...

Gostei pra caramba ! Bom conto, bem misterioso e com suspense, tá ótimo !

Bruno Conti disse...

muito bem elaborado =)
leite azedo..ri mt wahuieihuwaiehuiuwae

Cáh disse...

Muito legal ^-^

Terminou do jeito certo, para mim. Ficou aquele mistério no ar, dava para ver a cara da menina nessa hora. Acho que não deve ter continuação, o final seria um pouco óbvio se ela só furasse o outro olho.

Pode dar uma passadinha no "meu" blog e avaliar a história da Judy Mason? Olhe nos marcadores 0:-)
Se quiser, pode mandar por email =3

Cáh disse...

OMG, esqueci de postar o link. Sou uma lesa total.

historias-blog.blogspot.com

Compartilhado ^-^

kal disse...

Heeeeey, amei oo conto do Jeefew. Muito bem feito, tinha que ser feito pelo Jefferson... Você escreve muito bem.
Eu não gosto dos meus professores... não tenho certeza que chegaria a esse ponto. Cada um deve ser do jeito que se sinta bem, isso é o que importa.
Terá continuação? Ainda falta um olho...

Parabéns jeff'

. Yuri Barichivich disse...

Ficou muito bom seu texto. Você falou que o final foi fraco, mas era a intenção. Não existe glamour real em uma morte, o final é assim para mostrar quão pífia é a tentativa de cercear os erros atráves dessa método.

Apareça sempre no blog, comentários construtivos são muito bem vindos e retribuidos!

Verball
Siga-nos no @BlogVerbALL

B disse...

Cara, acabei de ler na super interessante que Elogio faz mal a sua saúde mental, então ou te dar uma critica.
Lembre-se que criticas não são apontamentos de erros, e sim formas de ver onde você pode melhorar.


O começo do texto tá bem escrito e com um ritmo bom. Você começa bem, mas no final, você acelera o texto, apressa as coisas, isso causa angustia e estranhamento para quem lê.
Eu sugeriria você manter mais o ritmo lento do texto, ou rapido, enfim, manter o ritmo do texto.

(: